Sacerdote analisa encíclica de Leão XIV e defende limites éticos para a IA
- 22/07/2026
No documento Magnifica humanitas, o Papa alerta para os perigos da automatização de decisões sociais e apela por uma aliança educativa com os jovens
Thiago Coutinho
Da redação

A tecnologia deve servir ao florescimento humano, e não à sua substituição, afirma Leão XIV em sua primeira encíclica / Foto: Freepik.com
Magnifica humanitas é a primeira encíclica, publicada em maio, do Papa Leão XIV. O Santo Padre aborda, nesse documento, o papel da Doutrina Social da Igreja diante do avanço acelerado da inteligência artificial. O Pontífice enfatiza que a tecnologia deve servir à humanidade, sem jamais submeter o ser humano às lógicas de poder do mercado.
Esta terceira reportagem da série sobre a Magnifica humanitas aborda o terceiro capítulo do documento, em que Papa Leão XIV reforça o cerne da obra: a tecnologia deve servir ao florescimento humano, e não à sua substituição. Como os cristãos, então, podem conter o avanço desmedido das inteligências artificiais e servir de farol para garantir que o ser humano continue a ser o “fim” e não o “meio” de todos esses processos tecnológicos?
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“O Papa é muito feliz no Capítulo III da Magnifica humanitas ao nos alertar sobre a ‘síndrome de Babel'”, afirma o padre Renan Dantas, da Diocese de Juína (MT), situada na região da Amazônia Legal. Pós-graduado em Teologia Social e Jornalismo Digital, o sacerdote também é graduando em Inteligência Artificial pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). “Esse desejo de traduzir absolutamente tudo em dados, desempenho e métricas de eficiência acaba por sufocar o mistério que existe dentro de cada pessoa. Nós não somos uma equação matemática a ser resolvida”, observa o sacerdote.
O padre cita também a Antiqua et Nova, documento publicado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé e pelo Dicastério para a Cultura e a Educação em janeiro de 2025, que trata da relação entre a inteligência artificial e a mente humana. “Ele nos dá um chão antropológico muito seguro ao lembrar que a máquina pode processar informações em velocidade assombrosa, mas é incapaz de viver uma experiência real”, pondera. “O algoritmo não tem corpo, não sente dor, não se arrepende e não sabe o que é misericórdia. Como diz a Magnifica humanitas no parágrafo 99: ‘Essas inteligências artificiais […] não conhecem internamente o que significa amor, trabalho, amizade, responsabilidade'”.
Deixar que sistemas automatizados decidam parâmetros de funcionamento amplo da sociedade é um ponto sensível. “Quando a gente deixa um sistema decidir quem ‘merece’ ou não um direito básico, nós estamos apagando a compaixão da política e das relações humanas”, adverte o padre Renan. “O algoritmo calcula com base no que já aconteceu; ele é determinista. O humanismo cristão, por outro lado, acredita na liberdade, na graça e na nossa capacidade de mudar de rumo.”
Segundo o sacerdote, a tecnologia precisa de um freio ético e humano. “O ser humano deve ser sempre o fim, nunca o meio ou um mero dado estatístico”, afirma.
Direitos fundamentais
A convicção de que um algoritmo — capaz de alterar profundamente o modo de viver e trabalhar da sociedade — não pode substituir a capacidade de discernimento do indivíduo também é compartilhada pelo Cardeal Ángel Fernández Artime, pró-prefeito do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Em sua intervenção na Assembleia Mundial dos Prêmios Nobel sobre Inteligência Artificial e Guerra Nuclear, ele destacou que “o problema não é a tecnologia, mas a orientação que queremos dar a ela. Se não levarmos em conta os direitos fundamentais, corremos o risco de criar sistemas que favoreçam o controle, a manipulação e até mesmo novas formas de desigualdade”.
O padre Renan argumenta que as empresas do setor de tecnologia precisam, urgentemente, rever as diretrizes que regem as redes sociais. “Sim, as empresas precisam refundar as suas políticas, e os documentos da Igreja nos dão o mapa para essa reconstrução”, afirma, sem rodeios. “Essa preocupação com o abismo social provocado pela tecnologia não é de hoje. Ela herda o espírito de luta contra a desigualdade da histórica encíclica Rerum Novarum, escrita pelo Papa Leão XIII.”
Para a Igreja, a última palavra em processos deliberativos sempre deve ser de uma pessoa, única capaz de discernir cenários levando em consideração a misericórdia e a compaixão. “O humanismo cristão defende a liberdade e a redenção. Por isso, decisões delicadas sobre crédito, saúde e emprego jamais podem ser 100% automatizadas”, reforça o sacerdote.
É preciso, por exemplo, mudar o que o Papa classifica na encíclica como “arquitetura da visibilidade”. “Hoje, os algoritmos das Big Techs são desenhados sob a economia da atenção — eles entregam o que gera mais engajamento, que quase sempre é o ódio, a mentira e a polarização. O Papa expressou forte preocupação com o impacto disso nas relações humanas, na informação e na educação, denunciando esse poder invisível de moldar o imaginário coletivo. As empresas precisam ser responsabilizadas publicamente por essa curadoria.”
Limites intransponíveis
A encíclica também aborda um tema caro à sociedade moderna: os limites da delegação de decisões humanas a sistemas automatizados. Haveria limites que a IA não deveria ultrapassar por afetarem diretamente a dignidade do indivíduo? Até que ponto a máquina pode ir sem anular o discernimento do coração?
“Se pararmos para observar a rotina de uma sala de aula, o convívio nas nossas casas ou a vida comunitária em nossas paróquias, a fronteira fica muito evidente: a máquina é excelente para calcular, mas absolutamente incapaz de perdoar. Para a moral católica, esse é o limite”, pondera o padre Renan.
É muito claro para a fé católica que a barreira intransponível para a inteligência artificial é a misericórdia. O parágrafo 102 da Magnifica humanitas pondera que sistemas automatizados não têm história e desconhecem a compaixão e o perdão. “Quando a sociedade delega decisões de vida, como o acesso a um tratamento médico, a um emprego ou a um crédito a um algoritmo, comete o que o Papa chama de covardia ética. Tenta-se camuflar a injustiça sob uma falsa ‘neutralidade técnica'”, acrescenta.
Não terceirizar o aprendizado
Em um dos momentos do terceiro capítulo da encíclica, o Santo Padre propõe uma “aliança educativa” para que famílias e escolas ensinem os jovens a não se apoiarem única e exclusivamente no uso de inteligências artificiais nos estudos. Segundo o padre Renan, são propostas duas atitudes práticas: a pedagogia do jejum de IA e a valorização do que as máquinas não podem oferecer.
“É preciso educar os jovens sobre quando e onde não usar a tecnologia — como é dito no Parágrafo 140. Se a maioria usa a IA para estudar, precisamos ensiná-los a não terceirizar a própria capacidade de pensar e a combater a hiperestimulação que gera tédio e apatia”, explica.
Para oferecer o que as tecnologias não conseguem suprir, o caminho seria propor o oposto do imediatismo digital. “A família, a escola e a Igreja não devem tentar competir com a velocidade do mundo tecnológico”, adverte o padre. “Nosso papel é garantir exatamente o contrário: tempo partilhado de silêncio, estudo profundo e relações reais baseadas no olho no olho, no diálogo e na confiança.”
O futuro da convivência humana com a inteligência artificial ainda se mostra incerto, mas repensar o uso responsável dessas ferramentas é urgente. “No fim das contas, a tecnologia serve para aliviar as tarefas, mas o encontro humano real é insubstituível. O farol da Igreja nos lembra de proteger o que nos torna humanos: a presença física e o afeto real”, finaliza o padre.
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